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domingo, 20 de julho de 2025

 Brasil e Estados Unidos e a piada de mau gosto


Por Marcos Lamounier - Goiânia - GO

Sabe aquela briga de bar em que dois figurões se encaram, trocam farpas, se acham os donos da razão... mas, no fundo, ninguém quer de fato lutar? Pois é. É mais ou menos isso que estamos vendo entre Lula e Donald Trump. Uma piada de mau gosto com roteiro mal escrito e consequências sérias.

A crise começou como sempre: com palavras. Lula, durante a reunião do BRICS+, decidiu enveredar por um discurso que mais pareceu um desabafo ideológico, repleto de indiretas maldosas à política externa dos Estados Unidos. Trump, como de costume, respondeu no mesmo tom. Disse que o Brasil estaria se alinhando “aos inimigos da liberdade”, sugeriu que “represálias econômicas” estariam na mesa, e mexeu onde realmente dói: na economia e na diplomacia.

E o resultado? Mais uma cortina de fumaça sendo soprada sobre um cenário já contaminado por instabilidade econômica, inflação global e polarização política sem precedentes. Mas, claro, os dois lados garantem que estão apenas “defendendo seus interesses”.

Retórica inflamada, mas realidade protocolada

Até agora, nenhuma sanção formal foi aplicada. Nenhum embaixador foi retirado. Nenhuma declaração oficial dos departamentos de Estado e Itamaraty apontam para rompimento de laços diplomáticos. O que temos é espuma.

Porém, a espuma atrapalha a visão.

Os EUA são, em números, o segundo maior parceiro comercial do Brasil, com mais de US$ 92 bilhões movimentados em 2023. O Brasil, por sua vez, é o 11º maior mercado de exportação para os americanos, especialmente no setor de commodities, biocombustíveis e minérios. Ou seja: a briga, se levada a sério, compromete negócios bilionários dos dois lados.

E pior: compromete a imagem institucional do Brasil em um momento em que o mundo procura parceiros confiáveis. Não ideológicos. Não barulhentos. Parceiros.

Trump joga para a base. Lula também. E o povo, mais uma vez, é figurante.

O teatro já está armado: Trump tenta voltar ao poder com seu discurso de “América acima de tudo”, e Lula faz malabarismo entre o socialismo latino e o globalismo político que tanto critica. E entre frases de efeito como “o Brasil não é quintal de ninguém” e “nós lutamos contra o comunismo”, o mundo assiste perplexo à infantilização da diplomacia.

Lula cita Palestina, Rússia, Cuba. Trump grita China, Irã, Foro de São Paulo. E o Brasil, que deveria agir com neutralidade estratégica — como fazem os países que pensam no próprio povo — se expõe a retaliações comerciais e, pior, vira motivo de incerteza no mercado internacional.

Fake news, pânico e a turma do apocalipse

Naturalmente, a internet entra em combustão. Teóricos da conspiração espalham vídeos com alertas sobre “fim da soberania nacional”, “ataques cibernéticos americanos” e até uma “nova intervenção militar disfarçada”. Nada disso tem base. Nenhum general se mexeu. Nenhum radar militar foi acionado. Mas o pânico serve bem ao projeto de poder de ambos os lados. Quanto mais medo, mais dependência da figura do salvador da pátria.

E é aqui que a piada se torna trágica: enquanto líderes alimentam o caos para alimentar seus projetos pessoais, quem paga a conta é o trabalhador. O dólar sobe, os combustíveis ficam mais caros, os insumos agrícolas encarecem e a inflação volta a bater à porta do povo — aquele que trabalha de sol a sol e nunca foi consultado sobre nenhuma dessas bravatas.

O que pode, de fato, acontecer?

Vamos aos fatos. Três coisas podem ocorrer, se essa guerra de palavras não for estancada:

  1. Restrição diplomática real: como por exemplo, exigência de vistos mais rígidos para empresários e autoridades brasileiras nos EUA — o que já foi mencionado informalmente por setores mais radicais ligados a Trump.

  2. Revisão de acordos comerciais: sobretudo na área de importação de biocombustíveis, aço e carne, setores em que o Brasil é fortemente dependente do mercado americano.

  3. Redução de confiança internacional: investidores institucionais, como o Banco Mundial, BID e até grandes fundos privados, observam o Brasil com mais cautela, por conta da instabilidade política e diplomática. O resultado? Dólar pressionado e fuga de capital.

Mas tudo isso pode ser evitado com uma boa dose de maturidade. Coisa rara em tempos de narcisismo político.

Conclusão: de piada em piada, perde-se a soberania


Diplomacia não é lugar para joguinho ideológico. O Brasil precisa ser pragmático. Precisa pensar como nação. Chega de discursos inflamados em cúpulas internacionais que servem mais para alimentar egos do que para firmar acordos. Não precisamos de palanques internacionais — precisamos de acordos que gerem empregos, atraiam investimentos e fortaleçam nossa posição no mundo.

Do jeito que vai, estamos vendo dois líderes brincarem de guerra enquanto seus povos sangram em silêncio. E isso não é só uma piada de mau gosto. É um insulto à inteligência de quem trabalha de verdade.

Me perguntam sempre:
"Marcos, você é de direita ou de esquerda?"

E eu volto à mesma lógica que usei lá na época de Dilma e Aécio, quando respondi:
"Não sou Dilma nem Aécio. Só não estou aéreo."

No contexto atual, encerro dizendo:
"Não sou de Lula nem de Trump, e muito menos acéfalo para cair em narrativa pronta."

Marcos Lamounier
Pai, avô, músico, escritor e empresário.

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